Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

A História não se repete (3) - "L'Affaire Salengro"

Outro caso em que “a honra de uma pessoa foi atirada aos cães” – esta é uma frase do Presidente francês François Mitterrand, em 1993, a propósito do suicídio de Pierre Bérégovoy, como relatámos aqui – foi o de Roger Salengro. L'affaire Salengro, quand la calomnie pousse au suicide - diz este blogue francês.

 

Ministro do Interior no Governo do “Front Populaire” em 1936, Salengro foi o principal obreiro dos  Acordos de Matignon, que consagraram pela primeira vez no Mundo a semana de 40 horas e as férias pagas para os trabalhadores.

 

Que não era suficiente – defenderam os mineiros comunistas que entraram em greve e receberam a visita do Ministro Salengro, que lhes faz frente e é tratado de “social-traidor” – é o primeiro tumulto que defronta.

 

Que era de mais – resistiram os patrões que afirmavam não poder reduzir o tempo de trabalho e manter os salários.  O Ministro reage ameaçando com a nacionalização – “se V. não podem, podemos nós” – da Agência Havas, ponta de lança de uma imprensa “nas mãos de alguns capitalistas aliados à reaccão”. Ganha a primeira batalha contra a Imprensa? Vingativa, a dita imprensa iria mover-lhe uma luta de morte.

 

 

Salengro tinha um passado honrado de militante socialista de origem humilde, que, tal como mais tarde Bérégovoy, entrara para a política através das lutas sindicais nos anos que se seguiram à I Grande Guerra num país devastado. Será depois jornalista, deputado, “maire” de Lille, antes de ser chamado por Léon Blum para manter a ordem e obrigar ao cumprimento da Lei num tempo de grandes conflitos.

 

Os trabalhadores têm as primeiras duas semanas de férias em Agosto de 1936. Dias antes, já o jornal de extrema direita Action Française – de Charles Maurras, inventor do nacional-catolicismo, grande mestre de Salazar – descobrira e publicara que Roger Salengro fora condenado em 1916 por deserção.

 

Era uma meia verdade. Salengro fora condenado por engano e mais tarde ilibado: de facto, não tinha desertado, fora feito prisioneiro e levado para a Alemanha, onde passara três duros anos de cativeiro de que ia morrendo.Se o Exército tinha reconhecido o erro e proclamado a sua inocência...  era o fim da história?

 

Não para os jornais de extrema-direita, que ignoraram todos os esclarecimentos e desmentidos e continuaram a bolsar calúnias contra o Ministro, como se ele não tivesse dito nada e calando tivesse consentido. Na campanha negra contra Salengro, de Julho a Novembro de 1936, destaca-se pela sua violência o jornal fascista Gringoire, também propagandista de Mussolini e admirador contumaz de Salazar.

 

A grande imprensa ignora o assunto, tanto os ataques da extrema direita como as explicações da defesa. Até que em Novembro Léon Blum vem a terreiro proclamar a sua solidariedade a  Salengro e a Assembleia Nacional francesa vota por grande maioria um desagravo ao Ministro.

 

Nem assim: os jornais de extrema-direita continuam a campanha. Seis dias depois do desagravo, Roger Salengro está sozinho na sua casa de Lille. Escreve duas cartas, uma ao irmão, outra a Blum: “Se eles não conseguiram a minha desonra, pelo menos hão-de carregar com a responsabilidade da minha morte”. E abriu a torneira do gás.

 

“L’Affaire Salengro” acaba de dar lugar a um telefilme comovente de Yves Boisset com o grande actor Bernard- Pierre Donnadieu no papel de Salengro. “Un homme d’honneur”,diz o Libération. 50 anos antes de Bérégovoy, “cet homme a été assassiné”.

 

 

publicado por JTeles às 03:47
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