Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Saramago contra as FARC: ai se o PCP sabe disso!

Com o título acima, publiquei no corta-fitas, no domingo 22 de Fevereiro, este simples bilhete a dar os meus parabéns ao nosso Prémio Nobel da Literatura por mais uma atitude desassombrada:

 

Desempoeirado, como sempre, José Saramago, em entrevista ao El Espectador, da Colômbia, condenou os sequestros das FARC . Como há uns anos condenou as execuções sumárias em Havana de uns desgraçados que tentaram roubar um barco para fugir para Miami. Felizmente para ele que não é deputado do PCP: teria sido obrigado a votar contra o seu Partido no voto de congratulações pela libertação de Ingrid Betancour. Um conselho a Saramago: não ponha os pés na festa do Avante que corre o risco de se cruzar por lá com algum braço político das ditas FARC e ser ele próprio sequestrado.

 

Foi uma tomada de posição que teve reduzido impacto na blogosfera, obcecada como está pelo Freeport e pela casa da mãe de Sócrates, além da própria, dele. Com a excepção do Hoje há conquilhas, do fenomenal Tomás Vasques, e sobretudo do jugular, onde um post de Palmira F. Silva agitou um pouco as águas turvas do negacionismo (negacionismo do gulag gerido pelas FARC nos trópicos).

 

E foi assim que nos comentários ao post da Palmira apareceu uma informação muito interessante: afinal o PCP sabe dos "desvios ideológicos" de Saramago e não estivéssemos em democracia burguesa isto tinha consequências. A prova foi enviada ao jugular por leitor anónimo e aqui a reproduzo, que preciso dela meus arquivos:

 

De Anónimo a 23 de Fevereiro de 2009 às 17:25

José Saramago, em entrevista a Yamid Amat, publicada no dia 28 de Novembro pp, pelo diário El Tiempo de Bogotá, o influente diário da oligarquia colombiana (400 mil exemplares), emitiu opiniões sobre as organizações guerrilheiras daquele pais que pelo seu conteúdo suscitaram compreensível surpresa. 

Segundo Saramago, na Colômbia "não há guerrilha, mas sim bandos armados". Tendo o entrevistador observado que ele "é comunista e a guerrilha se identificou com o comunismo", respondeu: "Não posso imaginar um país com um governo comunista que se dedicasse ao sequestro, ao assassínio e à violação de direitos humanos. Eles não são comunistas. Talvez no início tenham sido, agora não". 

Saramago é um grande escritor que pela sua obra conquistou enorme e merecido prestigio mundial. A justa atribuição do Prémio Nobel e a sua solidariedade com povos e movimentos que lutam pela liberdade e pela independência contribuíram para emprestar às suas tomadas de posição ressonância universal. 

Não foi, por isso mesmo, sem espanto que resistir.info tomou conhecimento de declarações de José Saramago, contendo acusações contra as organizações insurreccionais colombianas que repetem inverdades e calúnias formuladas pela direita reaccionária e o imperialismo. 

Afirma o escritor que não há guerrilhas na Colômbia, mas apenas "bandos armados". Porventura desconhece que dois ex-presidentes do país, Samper e Lopez, propõem negociações com o principal movimento guerrilheiro, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo, reconhecendo-o como interlocutor válido?

 

As FARC-EP vão comemorar 40 anos de existência. A antiga guerrilha de Marquetalia -- 47 combatentes -- transformou-se num exército popular de 18 000 homens que se bate em 60 frentes contra o mais poderoso exército da América Latina, numa luta desigual que só encontra precedente na travada no Vietnam. O seu líder, o comandante Manuel Marulanda, é hoje considerado pelas forças progressistas do continente como um herói da América Latina. O ex-presidente Pastraña dialogou com ele, numa zona desmilitarizada, de igual para igual. 

É estranhável também que José Saramago na extensa entrevista em que nega aos guerrilheiros colombianos a dignidade de revolucionários comunistas se tenha esquecido de incluir qualquer crítica ao presidente Álvaro Uribe, um político de extrema direita, ligado pelo seu passado aos bandos de paramilitares e narcotraficantes, responsável por uma estratégia de terrorismo de estado. 

A solidariedade com aqueles que na Colômbia lutam pela liberdade do seu povo implica para nós o dever de lamentar que um português com a dimensão e o prestígio de José Saramago tenha emitido numa entrevista de tão ampla repercussão, na capital de um país com um presidente neofascista, opiniões que não se coadunam com o seu perfil de humanista e a sua responsabilidade de intelectual progressista. 

Os editores de resistir.info 
Jorge Figueiredo 
José Paulo Gascão 
Miguel Urbano Rodrigues 
Rui Namorado Rosa 

 

Atenção a este resistir.info, é tudo gente importante, do melhor que o PCP tem. Miguel Urbano Rodrigues formou gerações de jornalistas que todos os dias dão que falar. Rui Namorado Rosa é professor emérito, foi candidato a deputado europeu. À frente de Saramago.

 

 

 

 

publicado por JTeles às 17:04
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