Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Saramago contra as FARC: ai se o PCP sabe disso!

Com o título acima, publiquei no corta-fitas, no domingo 22 de Fevereiro, este simples bilhete a dar os meus parabéns ao nosso Prémio Nobel da Literatura por mais uma atitude desassombrada:

 

Desempoeirado, como sempre, José Saramago, em entrevista ao El Espectador, da Colômbia, condenou os sequestros das FARC . Como há uns anos condenou as execuções sumárias em Havana de uns desgraçados que tentaram roubar um barco para fugir para Miami. Felizmente para ele que não é deputado do PCP: teria sido obrigado a votar contra o seu Partido no voto de congratulações pela libertação de Ingrid Betancour. Um conselho a Saramago: não ponha os pés na festa do Avante que corre o risco de se cruzar por lá com algum braço político das ditas FARC e ser ele próprio sequestrado.

 

Foi uma tomada de posição que teve reduzido impacto na blogosfera, obcecada como está pelo Freeport e pela casa da mãe de Sócrates, além da própria, dele. Com a excepção do Hoje há conquilhas, do fenomenal Tomás Vasques, e sobretudo do jugular, onde um post de Palmira F. Silva agitou um pouco as águas turvas do negacionismo (negacionismo do gulag gerido pelas FARC nos trópicos).

 

E foi assim que nos comentários ao post da Palmira apareceu uma informação muito interessante: afinal o PCP sabe dos "desvios ideológicos" de Saramago e não estivéssemos em democracia burguesa isto tinha consequências. A prova foi enviada ao jugular por leitor anónimo e aqui a reproduzo, que preciso dela meus arquivos:

 

De Anónimo a 23 de Fevereiro de 2009 às 17:25

José Saramago, em entrevista a Yamid Amat, publicada no dia 28 de Novembro pp, pelo diário El Tiempo de Bogotá, o influente diário da oligarquia colombiana (400 mil exemplares), emitiu opiniões sobre as organizações guerrilheiras daquele pais que pelo seu conteúdo suscitaram compreensível surpresa. 

Segundo Saramago, na Colômbia "não há guerrilha, mas sim bandos armados". Tendo o entrevistador observado que ele "é comunista e a guerrilha se identificou com o comunismo", respondeu: "Não posso imaginar um país com um governo comunista que se dedicasse ao sequestro, ao assassínio e à violação de direitos humanos. Eles não são comunistas. Talvez no início tenham sido, agora não". 

Saramago é um grande escritor que pela sua obra conquistou enorme e merecido prestigio mundial. A justa atribuição do Prémio Nobel e a sua solidariedade com povos e movimentos que lutam pela liberdade e pela independência contribuíram para emprestar às suas tomadas de posição ressonância universal. 

Não foi, por isso mesmo, sem espanto que resistir.info tomou conhecimento de declarações de José Saramago, contendo acusações contra as organizações insurreccionais colombianas que repetem inverdades e calúnias formuladas pela direita reaccionária e o imperialismo. 

Afirma o escritor que não há guerrilhas na Colômbia, mas apenas "bandos armados". Porventura desconhece que dois ex-presidentes do país, Samper e Lopez, propõem negociações com o principal movimento guerrilheiro, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo, reconhecendo-o como interlocutor válido?

 

As FARC-EP vão comemorar 40 anos de existência. A antiga guerrilha de Marquetalia -- 47 combatentes -- transformou-se num exército popular de 18 000 homens que se bate em 60 frentes contra o mais poderoso exército da América Latina, numa luta desigual que só encontra precedente na travada no Vietnam. O seu líder, o comandante Manuel Marulanda, é hoje considerado pelas forças progressistas do continente como um herói da América Latina. O ex-presidente Pastraña dialogou com ele, numa zona desmilitarizada, de igual para igual. 

É estranhável também que José Saramago na extensa entrevista em que nega aos guerrilheiros colombianos a dignidade de revolucionários comunistas se tenha esquecido de incluir qualquer crítica ao presidente Álvaro Uribe, um político de extrema direita, ligado pelo seu passado aos bandos de paramilitares e narcotraficantes, responsável por uma estratégia de terrorismo de estado. 

A solidariedade com aqueles que na Colômbia lutam pela liberdade do seu povo implica para nós o dever de lamentar que um português com a dimensão e o prestígio de José Saramago tenha emitido numa entrevista de tão ampla repercussão, na capital de um país com um presidente neofascista, opiniões que não se coadunam com o seu perfil de humanista e a sua responsabilidade de intelectual progressista. 

Os editores de resistir.info 
Jorge Figueiredo 
José Paulo Gascão 
Miguel Urbano Rodrigues 
Rui Namorado Rosa 

 

Atenção a este resistir.info, é tudo gente importante, do melhor que o PCP tem. Miguel Urbano Rodrigues formou gerações de jornalistas que todos os dias dão que falar. Rui Namorado Rosa é professor emérito, foi candidato a deputado europeu. À frente de Saramago.

 

 

 

 

publicado por JTeles às 17:04
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Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

O Cristanismo e o Império, ZMD e eu, no Corta-Fitas

O post anterior foi publicado no Corta-fitas e motivou algumas reacções. Destaco as críticas de ZMD e as respostas que lhe dei.

 

Contestação de ZMD a 20 de Fevereiro de 2009 às 11:36:

Mas que quantidade de disparates tão grande.

Primeiro, querer associar o declínio de Roma ao Cristianismo é uma patetice ideológica, que está mais que provado não ter qualquer fundamento histórico.

O Império Romano andava à deriva desde o tempo dos Antoninos. À excepção de um qualquer ocasional bom Imperador, o Império mantinha-se simplesmente porque os povos que o integravam preferiam ser Romanos do que bárbaros.

O Império caiu quando os bárbaros, quer serviam o Imperador, começaram a querer governar-se a si próprios.

Segunda questão. A Igreja portuguesa desde o Liberalismo até à Républica andou sempre afastada de Roma. Os bispos eram nomeados pelo Rei e não pelo Papa. Desde Dom Pedro IV até à Républica só se conhecem dois bispos portugueses que seguramente não eram maçons.

Para além disso, convém recordar que o Marquês de Pombal conseguiu a expulsão dos jesuístas e Dom Pedro expulsou o resto das ordens religiosas. O que sobrou foi quase tudo um clero às ordens do Poder.

Esta situação só se alterou em 1910, quando a Igreja começou a ser perseguida.

Por fim, como é que alguém que defende a liberdade de expressão depois acha que a Igreja não pode dar a sua? O Senhor Dom Jorge Ortiga por acaso não têm direito de dar as suas opiniões políticas? 

Em democracia todas as pessoas podem dar opinião. E as outras pessoas têm o direito de as ouvir ou não. Não queira o JTeles decidir sobre o que a Igreja pode ou não falar...

Resposta minha 20 de Fevereiro de 2009 às 12:57

Entendeu-me mal. O post não trata das causas da decadência do Império Romano do Ocidente, que foram variadas, embora me pareça que a apagada e vil tristeza em que os cristãos mergulharam o Império terá sido uma delas. Outro tanto se passou em Portugal durante o salazarismo e se quiser vamos ver as epístolas dos bispos aos fiéis durante a guerra colonial: são muito deprimentes. Mas o que mais me preocupa é que, tal como aconteceu no estalinismo, o cristianismo tenha apagado da História a resistência dos pagãos à destruição do seu património cultural. Entre o Senador Símaco e Santo Ambrósio, eu escolho o Senador. E o ZMD? Não me incomoda que D.Jorge Ortiga fale muito. Incomoda-me a Igreja Católica portuguesa não compreenda que a sua opinião é uma entre muitas, desde que deixou de ser a religião oficial do Estado há quase cem anos Que as outras religiões, incluindo os pagãos, têm a mesma dignidade.
 

 Réplica de ZMD a 20 de Fevereiro de 2009 às 13:48

JTeles,

desculpe, embora as religiões tenham a mesma dignidade, obviamente têm um peso social diferente.

A Igreja Católica não só têm um milhão e meio de fiéis praticantes em Portugal, como para além disso têm um papel incompáravel com qualquer outra religião no campo da acção social, da educação, da saúde, da cultura, etc.

A maior relevância social da Igreja não se deve a um favor do Estado, que nós não queremos, mas corresponde de facto a um maior peso social.

Por isso a posição da Igreja não é uma entre muitas. Embora (para voltar a Roma) não possua nem deva possuir "imperium", possui "auctoritas".

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Tréplica minha 20 de Fevereiro de 2009 às 17:30

ZMD, hoje tenho andado por fora, por isso só agora lhe respondo, com algum atraso. "Auctoritas" da Igreja - diz, quod erat demonstrandum, é disso me queixo. E em nome de quê? Do peso social? Faz-me lembrar os revolucionários franceses de 1789 que começaram por adoptar o sufrágio censitário, em nome do princípio de que quem mais tem mais deve pesar na vida da polis. Entendamo-nos: eu acho muito bem o peso social da Igreja, o Banco Alimentar, a miríade de IPSS, os lares e colégios, até mesmo os jornais, as rádios e as televisões, da Igreja. Até acho muito bem que o Estado subsidie tudo isso já que não é capaz de promover ele próprio as actividades que fazem falta à sociedade. Digo-lhe mais: até aceito que a Igreja tem, ou pode ter, um poder moderador, útil e respeitável. Prefiro uma Rádio Renascença, com o F Sarsfield Cabral (e antes dele com o José Luís Ramos Pinheiro!), com preocupações de equilíbrio, inteligente, avessa a injustiças sumárias, a uma TVI reaccionária, miguelista e caceteira, do género daquela que vem à tona todas as sextas feiras no programa da Manuela. O meu problema com a Igreja é esse da "auctoritas" que é muita presunção e água benta, salvo seja, da Vossa parte. Se acham que têm influência não ameacem, exerçam-na. Apelem a votar no Marcelo ou no Portas, mais católicos não há, e assumam as consequências. O que não podem é atirar a pedra e esconder a mão. Eu sei que é isso que faz o Louçã todas as semanas na Assembleia nos seus ataques pessoais a figuras do Governo. E que isso dá dividendos, na próxima o rapaz "sobe ao céu que nem uma fopa", e nesse dia eu emigro, já não seria a primeira vez. Já reparou que temos a extrema esquerda parlamentar mais numerosa, proporcionalmente, de todo o mundo ocidental? Como vê, não é só na auctoritas da Igreja Católica que somos um caso de estudo. Sans rancune.

publicado por JTeles às 22:01
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Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Num dia assim: a destruição dos templos pagãos.

Foi em 19 de Fevereiro de 356. O Imperador Constantino II promulga um decreto a mandar fechar todos os templos pagãos. Só em Roma havia então 424, pelo que “em cada bairro de Roma a sensibilidade dos cristãos era ofendida pelos fumos dos sacrifícios idolátricos”, como conta o clássico de Edward Gibbon, Declínio e Queda do Império Romano, profusamente citado por Daniel J. Boorstyn, n’Os Criadores, e n’Os Pensadores, ambos das edições Gradiva, em passagens que aqui adaptamos.

 

Este foi só o início de um processo que havia de durar uns 40 anos e estender-se aos confins do Império. Em 391 o Imperador Teodósio acrescentou à ordem de encerramento “a destruição dos ídolos”, equiparando o crime de idolatria ao de lesa-majestade, punível com a pena da morte. O cristianismo acabava de ser proclamado a Religião oficial do Império e não permitia tibiezas. Como os talibans hoje em dia. Como relata Gibbon:

 

Muitos desses templos eram dos mais esplêndidos e belos monumentos da arquitectura grega e o Imperador não estava interessado à partida em desfigurar o esplendor das suas cidades ou diminuir o valor das suas propriedades. Aqueles edifícios públicos poderiam ser tolerados como troféus da vitória de Cristo (…) Porém, enquanto durassem, os pagãos alimentariam a secreta esperança que uma revolução auspiciosa, um segundo Juliano, pudesse restaurar de novo os altares dos deuses, e o ardor com que dirigiam as suas vãs orações ao trono exacerbou o zelo dos reformadores cristãos decididos a extirpar, impiedosamente, a superstição pela raiz.

 

Isto é razoavelmente conhecido. Menos será que no processo, de Constantino a Teodósio, houve resistência. Boorstyn cita a intervenção comovente do nobre Senador Símaco, o qual, na sua condição de Prefeito (só nós é que dizemos Presidente da Câmara) de Roma, havia de implorar ao Imperador Valentino que pelo menos mandasse repor o Altar da Vitória, “símbolo dos deuses que tinham presidido ao florescimento da cidade”. “Concedei, imploro-vos, que nós que somos velhos possamos deixar para a posteridade aquilo que recebemos em rapazes. Todas as coisas estão cheias de Deus” – perorava Símaco que  punha a falar a própria cidade de Roma:

 

Deixai que use as minhas cerimónias ancestrais pois que delas não me arrependo. Deixai-me viver à minha maneira pois que sou livre. Foi este o culto que expulsou Aníbal das muralhas de Roma e os gauleses do Capitólio. É para isto que me mantendes, para ser castigada na minha velhice? Apenas peço paz para os deuses dos nossos antepassados, os deuses nativos de Roma. Está certo que aquilo que todos adoram seja considerado um só. Todos contemplamos as mesmas estrelas. Todos temos o mesmo céu. O mesmo firmamento nos abarca a todos. Que interessa qual a teoria erudita a que cada homem recorre para procurar a verdade? Não há apenas um caminho para nos conduzir a tão poderoso segredo. Tudo isto é matéria de discussão para homens ociosos. O que apresentamos a vossas majestades não é um debate, mas sim um pedido.

 

Tolerância e liberdade – pediam os pagãos. Ordem e progresso – respondem cinicamente os cristãos, pela pena de Santo Ambrósio:

 

Não há mal nenhum em mudar para melhor (nullus pudor est ad melora transire).Tomemos o exemplo dos antigos dias de caos em que os elementos voavam por todo o lado numa massa desordenada. Pensemos em como o tumulto se apaziguou na nova ordem do mundo e como esse mundo desde então se desenvolveu, com a invenção gradual das artes e os avanços da história humana. Suponho que nos velhos tempos do caos as partículas conservadoras se terão oposto ao advento da nova e vulgar luz do Sol que acompanhou a implantação da ordem. (…) Nós cristãos, também crescemos, sofrendo maldade, pobreza e perseguição, crescemos. A grande diferença entre vós e nós é que o que vós procurais por conjecturas nós conhecemos.

 

Pois parece o debate político em curso, com o Bispo D. José Ortiga no lugar de Santo Ambrósio. A principal diferença é que o Presidente da República, sempre tão solícito a fazer suas as palavras da Igreja, manda menos em Portugal do que o Imperador em Roma.

 

Outra diferença é que conhecemos as consequências do sectarismo religioso. Uns 20 anos depois da destruição dos “ídolos”, a 24 de Agosto de 410, as hordas de Alarico entravam em Roma e acusavam os cristãos de terem provocado a ira dos deuses protectores da cidade por terem destruído as suas imagens.

 

O que não convenceu Santo Agostinho o qual na Cidade de Deus, voltou a considerar as imagens veículos dos demónios, pelo que “os adoradores de ídolos são adoradores de demónios”.

 

Esta foi a doutrina que vingou, assim como o cristianismo como religião do Estado. Em Portugal, até 1910, a Religião Católica Apostólica Romana era a religião oficial e ofendê-la era um dos primeiros crimes do Código Penal.

publicado por JTeles às 20:04
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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

por favor deixem-nos bicicletar

Conhecem aquela frase do Tocqueville, “ah como era doce viver antes da Revolução!”? Digo o mesmo: tenho saudades das coisas como elas eram naqueles dias ensolarados de Fevereiro, em que só apetecia encher o peito de ar, pegar na bicicleta e ir passear para o Paredão, 2,4 km à beira-mar, da Praia da Azarujinha à Rua Direita de Cascais, a ver os suecos e as suecas ao comprido nas praias a apanhar sol – nunca têm frio estes mânfios! –, a sorver a maresia, a gostar da cara das pessoas, a querer ser amável com toda a gente.

 Assim  era, antes da Revolução, prima de la revoluzione, como no filme do Bertolucci. Entretínhamo-nos por aqui a tentar irritar um pouco o Presidente da Câmara de Cascais que, contrariamente ao de Oeiras, não deixava andar de bicicleta nunca no Paredão. Que de Outubro a Abril, pelo menos, não há perigo nenhum, para ninguém, em qualquer dia da semana: os raros passeantes vêem-se ao longe, um ciclista precavido passa ao largo, e se houver necessidade, alguém que de repente resolva atravessar-se-lhe no caminho, é ele que põe o pé no chão ou vai malhar com os… burros na água! Nos meses de Verão ainda vá, proíbam-se as bicicletas, das 9 da manhã às 9 da noite, sobretudo aos fins-de-semana. No resto do tempo, senhor Presidente Capucho, “por favor deixem-nos bicicletar”.

Temos de aproveitar. Que vem aí a Revolução, é inelutável, a acumulação capitalista é cada vez maior, as legiões de explorados aumentam e desesperam

 – tem piada que o desemprego em Dezembro parece não ter subido tanto como se esperava, anda para aí alguém a tentar a contrariar as leis científicas do marxismo-leninismo! –

mas enfim desesperos não se discutem. A cada semana que passa, e geralmente à sexta-feira, a manchete que mais vende costuma ser: “realiza-se hoje em Lisboa a maior manifestação desde o 25 de Abril”. Por falar nisso, vi um anúncio de uma manifestação de forças de segurança, creio que de guardas prisionais (isto está cada vez melhor!)

 – fazem o quê se as reivindicações não forem satisfeitas? deixam fugir os presos?  

 mas não era para esta sexta-feira. Falham uma? Ah, estão aqui a dizer-me, esta não pôde ser que é véspera de carnaval.

Vamos, camarada, mais um passo: é agora, está na hora, da Ministra se ir embora! Depois lá mais para a frente, talvez nas “Jornadas de Julho”, num Congresso de todos os sindicatos e comissões de trabalhadores, refinamos as exigências: fora com a canalha que só manduca, todo o poder a quem educa!

E quem educa quem é quem é? Ponham os olhos no politburo do BE: oito professores, dois jornalistas – é essa a proporção.

publicado por JTeles às 03:02
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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

intervalo para explicar o ké ké o estoiro da boiada

Esta é uma imagem que me ficou de um western americano, o Red River, do Howard Hawks, que vi a semana passada na cinemateca – no exacto dia em que o FAL, o Pedro Correia, o Luís Naves, e o João Vilalobos, por procuração, tiveram a ideia arriscada de me convidarem a escrever no corta-fitas, nem sabem no que se meteram. O filme é de 1948, a preto e branco, mas para mim faz parte dos cinco melhores westerns de sempre e o que tem de melhor é esta cena do meio:

Iam os vaqueiros com uma manada de 10 mil cabeças, do Texas interior para o Norte industrial, pelo Oklahoma fora a caminho de Abilene, no Kansas, onde se esperava que a linha do comboio já tivesse chegado. O gado estava cansado com 40 e tal dias já de marchas forçadas, enervava-se com a presença dos coiotes na pradaria, amedrontava-se com a agressividade da paisagem e das pessoas, que ia em crescendo. “O gado está inquieto, que ninguém faça barulho!” – mandava John Wayne, que nos filmes é sempre o grande líder (por acaso no Red River o Montgomery Clift é que é mesmo o bom da fita!).

O “Duke” ainda não tinha acabado a frase e um banal incidente – um lambareiro que fora à procura da panela do açúcar na carroça dos utensílios de cozinha – levanta um ruído aflitivo,  pilhas de panelas que se desconjuntam e caem, e chocam, e batem, umas contra as outras, uma manifestação de panelas vazias, a bem dizer. Como mais tarde no Chile?

“E foi um tiro”, como se diz na minha terra: de imediato as vacas desataram a fugir por todos os lados, derrubando tudo o que lhes aparecia pela frente, esmagando as que caíam, num arrastão, aterrador. “Stampede” – gritou o artista. E saltaram logo todos os comparsas para os cavalos a tentar desviar a corrida desalmada  para algum obstáculo natural que lhes servisse de barreira.

“Stampede” é o quê em português? Debandada? É pouco, só quem não viu o filme. Os brasileiros, que conheceram essa realidade das manadas de muitos milhares de cabeças que entram em pânico, chamam-lhe estoiro, “o estoiro da boiada”.

É o que eu acho que vem aí. As vacas, nesse aspecto, são como as pessoas: eu já vi ajuntamentos pacíficos a degenerar em manifestações de pânico, e as manifestações de pânico levarem tudo à frente. Aqui e em França. Sei como uma multidão descontrolada pode tornar-se uma besta feroz, mesmo se cada um dos seus elementos, individualmente considerado, é uma jóia de pessoa (tive de enfrentar situações dessas quando comecei a trabalhar na RTP a seguir ao 25 de Novembro, um dia conto-vos!). Pois o Plekhanov explica isso tudo no "Viol des foules". Que era sobre o Hitler mas bem podia ser sobre o Hugo Chavez, se querem saber.

Ouviram ontem aquele trabalhador inglês aos gritos às portas da BMW britânica que de um dia para o outro despediu 800 e tal? Viram o Presidente Sarkozy a conceder avales à indústria automóvel francesa com a condição de que se tiver de fazer despedimentos os faça no estrangeiro? Viram que a recessão japonesa, a segunda maior economia do mundo, atingiu em Dezembro os 12,9%? Viram que em Portugal o divertimento continua como se nada estivesse a acontecer, com os professores faltosos a pôr o Ministério em tribunal e o mais que aí vem?

Pois vamos a caminho do estoiro da boiada e eu espero sobreviver e poder contar aos meus netos como foi.

publicado por JTeles às 03:14
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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

avozinho, conta-nos como foi (1)

Conto sim senhor, meus queridos netinhos, com todo o prazer. Sabem que a memória do vosso avô às vezes lhe prega partidas, que tenho alguma tendência para misturar os nomes das pessoas e as histórias que se repetem. Mas garanto-vos a fidelidade das citações, tenho-as aqui todas nas minhas fichas de papel, faço colecção. Pelo que, parafraseando Costa-Gavras no filme Z, a contar as provocações de rua que prepararam a ditadura dos coronéis,  “qualquer semelhança com a realidade foi deliberada, não é coincidência”. Por falar em Costa-Gavras, eu já vos contei a história do “L’Aveu” que…?

- Umas cinquenta vezes!

 É a história de um dirigente comunista checoslovaco que cai em desgraça e para ajudar o partido confessa os piores crimes ao Ministério Público do partido, após torturas requintadas, que os americanos cinquenta anos depois, meninos de coro, terão tentado imitar com parco sucesso em Guantanamo,  eram piores que a PIDE aqueles cabrões!

 - Já sabemos, avô, cuidado com a língua!

Pois neste recanto da Ibéria durante dezenas de anos ninguém soube, nem quis saber, da natureza estalinista, bárbara, sanguinária, de certos “educadores do proletariado”, professores em insurreição permanente, e depois queixavam-se dos alunos, conduzidos em manada pelos “vaqueiros da democracia” à moda da Coreia do Norte… Eu já vos contei como era a Coreia do Norte naquele tempo?

- Não te enerves, avô, o coração não aguenta.

Não me enervo. A minha história começa no começa num 16 de Fevereiro, com duas notícias de fim-de-semana que vão ter grande impacto no agudizar das tensões.

A primeira foi que o o liberal Príncipe Lvov (tomará outras identidades a seguir) acaba de ser plebiscitado pelas suas tropas (não terá sido uma intentona?  houve batota?  por que carga de água ninguém lhe disputou o lugar?) para as funções de candidato potencial a líder de todos as Rússias, se não me engano. Estranho, hem! Nas circunstâncias em que o plebiscito ocorreu foi e de que maneira. Eu já vos conto o resto.

A segunda grande notícia daquele fim-de-semana ameno, começou logo a falar-se do aquecimento global, juro-vos, foi que “os professores” acabavam de pôr o Ministério da Educação em tribunal porque estavam a ser pressionados (sic!) para apresentar as suas autoavaliações, como era de Lei, coitadinhos deles.

- E era crime na altura lembrar-lhes que o não cumprimento da Lei tinha consequências?

Bom, isto é, dependia dos juízes a quem o caso calhasse. Vocês já passaram no túnel do Marquês, não passaram? Pois talvez não saibam que custou mais dez milhões do que o previsto porque um juiz mandou parar as obras, a requerimento de um cidadão advogado e futuro vereador, que achava que tudo aquilo constituía um perigo danado.

Enfim, continuamos amanhã, o folhetim vai começar,  faltavam 255 dias, já não é muito tempo, para o estoiro da boiada.

publicado por JTeles às 14:35
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