Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Uma horta na Casa Branca, além do cão-de-água

Michele Obama pediu e vai ter (além do cão-de-água português, para as filhas) uma horta nos jardins da Casa Branca, no que retoma o bom exemplo de Eleanor Roosevelt, nos anos 30 e 40 do século passado, depois da Grande Depressão.

 

Faz bem, minha senhora. Eu também tenho uma pequena horta no meu quintal, sinto-me solidário consigo e só espero que não tenha de regar as couves e os feijões com água da Companhia. De resto, “cultivar os seus legumes” é o que pode fazer de melhor na Casa Branca, já Voltaire o encareceu, no Candide, em 1759. Que remata assim:

 

 …La nouvelle s’était répandue qu’on venait d’étrangler à Constantinople deux vizirs du banc et le muphti, et qu’on avait empalé plusieurs de leurs amis. Cette catastrophe faisait partout un grand bruit pendant quelques heures. Pangloss, Candide et Martin, en retournant à la petite métairie, rencontrèrent un bon vieillard qui prenait le frais à sa porte sous un berceau d’orangers. Pangloss, qui était aussi curieux que raisonneur, lui demanda comment se nommait le muphti qu’on venait d’étrangler.


 –  Je n’en sais rien, répondit le bonhomme, et je n’ai jamais su le nom d’aucun muphti ni d’aucun vizir. J’ignore absolument l’aventure dont vous me parlez ; je présume qu’en général ceux qui se mêlent des affaires publiques périssent quelquefois misérablement, et qu’ils le méritent ; mais je ne m’informe jamais de ce qu’on fait à Constantinople ; je me contente d’y envoyer vendre les fruits du jardin que je cultive. (...)

–  Vous devez avoir, dit Candide au Turc, une vaste et magnifique terre ?


–  Je n’ai que vingt arpents, répondit le Turc ; je les cultive avec mes enfants ; le travail éloigne de nous trois grands maux : l’ennui, le vice, et le besoin. (…)


– Les grandeurs, dit Pangloss, sont fort dangereuses, selon le rapport de tous les philosophes : car enfin Églon, roi des Moabites, fut assassiné par Aod ; Absalon fut pendu par les cheveux et percé de trois dards ; le roi Nadab, fils de Jéroboam, fut tué par Baaza ; le roi Éla, par Zambri ; Ochosias, par Jéhu ; Athalia, par Joïada ; les rois Joachim, Jéchonias, Sédécias, furent esclaves. Vous savez comment périrent Crésus, Astyage, Darius, Denys de Syracuse, Pyrrhus, Persée, Annibal, Jugurtha, Arioviste, César, Pompée, Néron, Othon, Vitellius, Domitien, Richard II d’Angleterre, Édouard II, Henri VI, Richard III, Marie Stuart, Charles Ier (o nosso D. Carlos I teve a mesma sorte), les trois Henri de France, l’empereur Henri IV ? Vous savez...


–  Je sais aussi, dit Candide, qu’il faut cultiver notre jardin.


–   Vous avez raison, dit Pangloss : car, quand l’homme fut mis dans le jardin d’Éden, il y fut mis ut operaretur eum, pour qu’il travaillât, ce qui prouve que l’homme n’est pas né pour le repos.


–  Travaillons sans raisonner, dit Martin ; c’est le seul moyen de rendre la vie supportable.  

Toute la petite société entra dans ce louable dessein ; chacun se mit à exercer ses talents. La petite terre rapporta beaucoup. Cunégonde était à la vérité bien laide ; mais elle devint une excellente pâtissière ; Paquette broda ; la vieille eut soin du linge. Il n’y eut pas jusqu’à frère Giroflée qui ne rendît service ; il fut un très bon menuisier, et même devint honnête homme ; et Pangloss disait quelquefois à Candide :


–  Tous les événements sont enchaînés dans le meilleur des mondes possibles ; car enfin, si vous n’aviez pas été chassé d’un beau château à grands coups de pied dans le derrière pour l’amour de Mlle Cunégonde, si vous n’aviez pas été mis à l’Inquisition, si vous n’aviez pas couru l’Amérique à pied, si vous n’aviez pas donné un bon coup d’épée au baron, si vous n’aviez pas perdu tous vos moutons du bon pays d’Eldorado, vous ne mangeriez pas ici des cédrats confits et des pistaches.


–  Cela est bien dit, répondit Candide, mais il faut cultiver notre jardin.

 

“Jardin”, aqui, é o “jardin potager”,  tão caro aos franceses, o equivalente à  horta dos "alfacinhas", que existiu durante séculos nas traseiras dos prédios antigos, e devia ser retomada, como defende o arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles. Que os grandes vizires da banca sejam enforcados –  o que é que isso interessa? Quem se mete na política morre pela política, e é bem feita! O trabalho braçal afasta de nós os três males capitais que são… o enfado, o vício e a necessidade. As hortas é que são a solução para a crise. Michele Obama compreendeu a lição. E vocês?

publicado por JTeles às 01:47
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Terça-feira, 10 de Março de 2009

A crise de confiança que está a dar cabo dos jornais

O Seattle Post-Intelligencer, mais conhecido por Seattle pi (leia-se pi ai), é um prestigiado jornal diário, propriedade da Hearst Corporation, que se publica desde 1863 no Noroeste dos Estados Unidos, Estado de Washington, um território um pouco maior do que Portugal em área (150 mil km2) e um pouco inferior em população (7 milhões de habitantes). O Seattle pi regista, ainda neste mês de Março de 2009, uma circulação diária de 117 mil exemplares, o que em Portugal seria um sucesso. Não chega e vai suspender a sua publicação em papel nos próximos dias mantendo apenas uma edição online.

 

 Motivo: está a perder dinheiro, 8 milhões de dólares em 2008, o que comparado com alguns jornais portugueses pode nem parecer muito. É que “a crise de confiança em curso”, que está a afectar a imprensa, tanto ou mais do que a banca, deixa poucas esperanças de recuperação a curto prazo.

 

Em todo o Mundo. Lemos há dias que o El País, do grupo Prisa, que também é dono da TVI, tinha perdido nos últimos três meses cerca de 100 mil leitores, apesar do “escândalo da espionagem” na Comunidade de Madrid, estranhíssimo, que o jornal descobriu e lançou. O New York Times, um dos maiores jornais do mundo, acaba de vender 21 andares da sua sede em Manhattan, realizando 225 milhões de dólares para abater na sua dívida acumulada de mil milhões.

 

O director do Seattle pi é David Horsey, cartoonista, que ganhou já dois prémios Pulitzer, e queixa-se que no grande plano de financiamento da economia americana, lançado pelo Presidente Obama, não haja nada para a imprensa. Nem mesmo uma linha de crédito, que subsídios à imprensa (ou ao cinema!) na América seria um crime. Ora, diz Horsey, a crise da imprensa escrita é a mais desvalorizada, e destruidora, de todas as crises.

 

Os avais à banca justificam-se pela necessidade de recuperar a qualidade do sistema financeiro. E a qualidade da democracia quem a defende? Os jornais que investigam, analisam e explicam. E não os talks shows, e o populismo fácil, das rádios e televisões.

 

E diz Horsey que os próximos prémios Pulitzer deviam ser dados a quem inventar uma maneira de a imprensa honesta fazer dinheiro. Que a sede e fome de audiências são em geral maus conselheiros. E não dão em geral grandes resultados.

 

Vocêm lembram-se da “campanha dos 33 mil contos” que Sá Carneiro alegadamente devia à “banca nacionalizada”, com manchetes incendiárias, e ódio a rodos, embora qualquer pessoa com dois dedos de testa concluísse logo que era uma estupidez pegada?  Sá Carneiro contratara com um banco privado, antes das nacionalizações, e se fizera bons ou maus negócios era lá com eles.

 

 A campanha dos 33 mil contos, que ainda hoje persiste em algumas paredes do País, deu à AD a segunda maioria absoluta. E a prazo “enterrou” o jornal que a promoveu. Não, não estou a falar do “Independente”, refiro-me ao “o diário”, “a verdade” a que os comunistas tinham direito.

 

Encontrei ontem na Baixa um dos advogados de Sá Carneiro em 1980 e falámos disso. Escrevem-se livros por tudo e por nada. Como é ninguém se lembrou ainda de contar com todos os pormenores aquela campanha negra e os resultados que teve? Ora, as pessoas que a fizeram andam por aí e os tribunais, hoje, não são os de 1980. Se fossem…

publicado por JTeles às 15:04
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Sexta-feira, 6 de Março de 2009

Bispo excomunga médicos por aborto de menina de 9 anos

Esta é uma notícia publicada ontem por toda a imprensa brasileira, como se pode ver no Jornal O Globo:  Arcebispo excomunga médicos por aborto legal em menina de nove anos, que corria perigo de vida

 


 

Aconteceu no Recife. Uma menina de 9 anos entrou no Hospital com violentas dores de barriga. Feitos os exames, o s médicos concluíram que a menina estava grávida. Grávida de gémeos. Aos nove anos. Isto é: a continuação daquela gravidez podia matá-la. Esta é segundo a lei brasileira uma possível justa causa de aborto.


Mas havia uma segunda razão para o aborto legal. O padrasto confessou que abusava da menina desde os 6 anos. E a violação, estupro, na qualificação da lei brasileira, também exclui a ilicitude do aborto.


O arcebispo de Olinda e Recife, D José Cardoso Sobrinho, é que não esteve pelos ajustes: tentou de imediato uma providência cautelar para suster o aborto. E, consumado este, excomungou de imediato os médicos que praticram o aborto, além dos parentes da menina que nisso consentiram.


E proclamou que, aos olhos da Igreja, o aborto foi um crime e que a lei dos homens não está acima das leis de Deus: quando uma lei humana, quer dizer, uma lei promulgada pelos legisladores humanos, é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor -- proclama o Bispo.


Os médicos decidiram que a saúde da criança era mais importante e cumpriram o que determina a lei dos homens? A criança de nove anos não tinha corpo para aguentar uma gravidez de gémeos e podia morrer? Eis o que não comoveu o Bispo Sobrinho. Ao El Pais cita uma senhora que se deixou morrer para não ter de praticar aborto. "E é hoje santa".


Crianças violadas, morram, que vão para o Céu. Este é, em todo o seu esplendor, o mandamento da Igreja Católica do Brasil.

publicado por JTeles às 01:10
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