Domingo, 12 de Abril de 2009

A História não se repete (1): Pierre Bérégovoy

 

“A honra deste homem foi atirada aos cães. Não se suicidou, foi assassinado”. Isto disse François Mitterrand em 1993 nos funerais de Pierre Bérégovoy apontando muito frontalmente o dedo aos juízes que durante meses de maneira cirúrgica tinham alimentado os jornais com dicas e papéis alegadamente escabrosos de um processo absolutamente inocente.

 

O Primeiro Ministro socialista e amigo pessoal do Presidente (tinha sido o seu primeiro chefe da Casa Civil) era um homem simples, filho de emigrantes ucranianos, antigo operário metalúrgico, resistente e sindicalista da CFTC (confederação cristã), e por isso, logo à partida, pouco apreciado nos sofisticados salões parisienses.

 

Vivia num modesto apartamento que comprara uns anos antes. E uma denúncia anónima fez chegar ao “parquet” que boa parte do dinheiro para a compra lhe fora emprestada (ou dada?) por um amigo seu, muito na berra por ser homem de negócios e também amigo pessoal do Presidente da República. Bérégovoy confirmou: beneficiara de um “empréstimo de amigos”, sem juros e “não te preocupes, pagas-me quando puderes”.

 

Estão a ver o horror da coisa?! Desde Georges Pompidou – que tinha sido um alto quadro do Banco Rotschild antes de ser chamado por De Gaulle para o serviço da República e por isso era acusado todos os dias de ser um homem de mão do grande capital, como se passasse pela cabeça de alguém que um homem como o Barão Rotschild pudesse pedir algum favor ao PM – que não se via uma coisa assim. Os juízes encetaram de imediato uma investigação a todas as eventuais benesses que o amigo do Presidente e do PM poderia ter recebido em troca.

 

A investigação durava, durava, e nada de realmente comprometedor se apurava contra Bérégovoy? “Qu`à cela ne tienne”, bem-aventurados os que têm inveja dos famosos, e fome, e sede, de vingança, como é aquele ucraniano de meia tigela tinha chegado onde chegou? Bastava que todos os dias, ou semanas, de preferência nas sextas à noite ou nos sábados de manhã, surgissem hipóteses novas, leves e bem urdidas insinuações, pequenos factos truncados, eventualmente sórdidos, que alguns juízes, mais ou menos próximos do processo, deixavam escorregar para a imprensa, que tudo abocanhava e transformava em lama. Vocês sabem do que é que eu estou a falar.

 

O regabofe, com “a honra de uma pessoa atirada aos cães”, terá contribuído largamente para que o PS francês perdesse as eleições gerais naquele ano de 1993. Pouco tempo depois, num 1º de Maio, com o tempo das cerejas por aí a bater à porta, Pierre Béregovoy apareceu morto num banco de jardim. 

 

 

PS1 - Escusam de me atiçar já os cães.Esta história passou-se em França, há 16 anos, não tem nada a ver com o comportamento de qualquer entidade pública ou privada, nacional. À cautela, activei a moderação de comentários. 

 

PS2 - Tenciono escrever aqui outras histórias exemplares, parecidas com a do Pierre Bérégovoy, que eu conheci de vista no PS francês, quando por lá andei no princípio da década de 70. Por favor, "deixem-me trabalhar"...

 

PS3 - A minha solidariedade com a Fernanda Câncio, do jugular. Eu sei do que é que ela está a falar, e que tem carradas de razão, quando denuncia as notícias que alguns plantam nos jornais. 

publicado por JTeles às 14:45
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